Revista Rua

2021-01-20T14:10:05+00:00 Opinião

Uma oportunidade

Política Nacional
Pedro Nascimento
20 Janeiro, 2021
Uma oportunidade

Um frio intenso assolou os primeiros dias de 2021, oferecendo-nos uma experiência pouco usual. Uma vaga nórdica que vagueou pelas ruas e marcou duas semanas onde foi extremamente difícil encontrar o conforto de algum calor, num ambiente carimbado pela exponenciação de uma pandemia que teima em não desistir. A contrastar com um sentimento de tristeza e receio generalizado, o raiar do sol oferecia um pequeno alento. Até ao momento em que a chuva regressa e, drasticamente, nos arrasta para o pior momento de sempre. Nunca Portugal viu tombar tantos filhos em tão pouco tempo.

Um livro de História de um recanto quase milenar, cujo folhear de páginas nos proporciona uma crescente vontade de brandir espadas em memória daqueles que construíram a Nação, faz também brotar um sentimento de impotência, tristeza e até revolta. O tempo, que nos mostrou a conquista dos castelos mouros, a derrota de Castela em Aljubarrota, a Restauração da Independência, a luta liberal, a Primeira Guerra Mundial, a Guerra Colonial e tantos outros acontecimentos, com um chão manchado com sangue lusitano, brinda-nos agora com a mais lúgubre das guerras.

O peculiar significado dos números eleva-nos por vezes à condição de indiferença. No início, um ou dois estão munidos de um efeito impactante. Discorridos pelos gráficos e pelas imagens, os números tornam-se quase inócuos. São números, que escondem faces, vidas e histórias.

E o frio que por cá passou deixou um pouco de si. Invadiu-nos a alma. Desfaz lentamente o ímpeto da luta e esmorece a exaltação do espírito crítico àqueles e naqueles que amarram o leme. E só a hodierna despreocupação dos que se evadem do novo mundo faz parecer que a normalidade ainda sobrevive.

Experimentamos agora um cerco, que aperta a cada dia. Se por obra do acaso, se por erros se despoletou, podemos todos divergir. Mas as ferramentas para o apurarmos são hoje muito diferentes das dos tempos dos cercos de outrora. Estes são momentos propícios ao apelo acrítico. Porquê criticar o que se fez ou não se fez, questionam. Porquê colocar ações ou omissões em causa. Eu respondo, utilizando as mesmíssimas palavras daqueles que querem justificar os privilégios destas elites políticas em plena pandemia: PORQUE A DEMOCRACIA NÃO ESTÁ SUSPENSA!

O mesmo mundo que nos deu a conhecer Homens que foram valentes líderes e heróis despejou-nos também o político. O político de hoje. Aquele político que sacode a sua responsabilidade na valeta como se de lixo se tratasse, mesmo tendo um recipiente próprio para o fazer ao seu lado. Aquele político que abomina a doutrinação e que vive a doutrinar. Mas também é aquele político que, sem querer, nos abre uma oportunidade fulcral: esta é a hora de mostrar que não precisamos do político. Precisamos de nós, apenas, para fazer a nossa parte. Para ficarmos em casa. Para respeitarmos e nos orgulharmos do médico, do enfermeiro, do auxiliar, do farmacêutico, do investigador, do transportador, do repositor… de todos os que nos permitem sobreviver.

Estamos cercados. Mas este não é o cerco de Megido ou de Cartago, de Vicksburg ou de Leninegrado. Temos alimentos, temos família, temos alento. As bombas não caem indiscriminadamente nas nossas cabeças. Muitos assim caíram, mas também muitos dali saíram. Uma vez mais, a História é a esperança. A esperança que nos catapulta para uma dimensão superior, capaz de encontrar a chave da vitória.

Afinal, na infinitude do espaço e do tempo, somos nós que vivemos no mesmo local e na mesma época. Esta é a nossa oportunidade. Esta é a nossa responsabilidade.

Sobre o autor

Advogado. Licenciado em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra. Aficionado por música e desporto. Entusiasta de História Militar e autor da página WWII Stories Group.

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