Revista Rua

2019-07-01T15:38:00+00:00 Opinião

Uma sereia com rabo de atum

Palavras
Paulo Brandão
Paulo Brandão
1 Julho, 2019
Uma sereia com rabo de atum

Uma sereia com rabo de atum. Foi assim que começou o dia.

Uma sereia tentando limar os seus contornos afiados de atum para não ferir ninguém.

O atum, com rabo de sereia, com quem a sereia com rabo de atum fazia amor três vezes por semana, tinha uma preocupação menor, mas não menos trabalhosa. Com a sua minúscula boca, deixar escama por escama do mesmo tamanho e com o mesmo brilho das unhas de verniz dos humanos.

Foi assim que começou o dia, pensando eu que um conto que fundisse uma sereia e um atum amorosamente, numa tentativa marítima de A Bela e o Monstro, fosse uma ideia peregrina. Algo engenhoso, embora tivesse de fazer evoluir as duas imagens desenhadas na minha cabeça e a razão de tal ato siamês. Primeiro, com papel e lápis, desenhei toscamente uma sereia e depois um atum na mesma escala. A sereia era loira e o atum moreno. Recortei com mimo um e outro, encontrei o meio de cada um, voltei a usar a tesoura e, trocando os troncos, juntei-os. Lá estavam os dois novos seres: um Seratum e uma Atureia.

Quando era pequeno tinha uma autoilusão persistente e não muito humana de que poderia viver dentro de água. E dava comigo a pensar coisas estranhas, de como seria cozinhar ou lavar a loiça em casas feitas de tijolos de corais no fundo do mar. E, na verdade, na minha cabeça, não havia diferença alguma entre o ar e a água. Tudo funcionava até ao momento em que pensava que um peixe fora de água era um peixe morto. E que por isso mesmo a autoilusão era sonhar acordado e que sonhar dormindo era aquele peixe morto cheio de moscas, teso e malcheiroso tornado pesadelo.

Quando era pequeno tinha uma autoilusão persistente e não muito humana de que poderia viver dentro de água. E dava comigo a pensar coisas estranhas, de como seria cozinhar ou lavar a loiça em casas feitas de tijolos de corais no fundo do mar.

O mais oceânico da coisa, imaginando agora em adulto, é que Seratum é de uma beleza embaraçante. Apesar de tirano, descendente de Ulisses, era um ser encantador e poucos corações estavam fechados ao seu olhar terrestre. Atureia era sábia em línguas, conhecia de há muito todas as falas ancestrais de marinheiros e escravos dos navios fundadores da humanidade, e por isso a sua glória era tal que todas as outras espécies de peixes, mamíferos, molúsculos e afins a desejavam como uma aventura inacessível. Atureia, pensemos um pouco, na verdade, era descendente de Penélope. Fiará anos sem fim, perderá a capacidade de falar, mas ganhará a habilidade homérica de ensurdecer os seus sedutores.

Foi assim que começou o dia. Ao juntar os dois. Ao perceber que isso do amor tem qualquer coisa de osmose, cirurgia plástica, literatura clássica, vontade de criar e até de congeminações tontas. Escolhemos o sono e negamos a insónia. Escrever estará sempre do lado do dormir. Nunca o dia ou uma história poderão começar sem termos dormido.

Há dias, quando barrei uma prateleira no supermercado soltaram-se latas de atum acidentalmente (não há latas de sereia, pois não?) e meia dúzia acusaram o chão. Arrumei-as e levei uma para casa. Aquela que mais mossas fez com o embate da queda. Não a abri. Não a vou abrir. Acredito que algo de onírico haja lá dentro. Um dia, acidentalmente, já esquecido do que escrevo e com fome, abrirei a lata e à mente saltar-me-á uma sereia com rabo de atum. Ou um atum com rabo de sereia. Aposto. Provavelmente os dois!

Sobre o autor:
Diretor artístico do Theatro Circo.

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