Revista Rua

2020-06-14T21:06:33+00:00 Opinião

Vai ficar tudo na mesma

Humor
João Lobo Monteiro
João Lobo Monteiro
14 Junho, 2020
Vai ficar tudo na mesma
Manuel de Almeida/Lusa

Prometi que não falava mais de Covid e vou cumprir, que eu sou pessoa de palavra, sobretudo palavra escrita, que a falar não me safo tão bem. Felizmente, há mais assunto no mundo para além da Covid; infelizmente, o assunto que há só vem provar que aquela treta covidiana do “vai ficar tudo bem”, como era de prever, era mesmo treta.

Contra mim falo, porque bastou um jogo da minha equipa, na retoma da Liga, para eu me irritar como se o futebol fosse a coisa mais importante do mundo. Não é a primeira, que é a saúde, nem é a segunda, que é a família, mas é a terceira mais importante. Ainda assim, não é razão para eu me irritar com constantes desatenções defensivas. Vai voltar a acontecer nos próximos jogos? Vai. Vai acontecer durante a vida toda, enquanto houver vida, que é o que interessa, respirar e tal.

Falando sobre vida e sobre respirar: #BlackLivesMatter. Caramba, brilhante transição! Bem, estamos a chegar ao verão, época em que o objetivo de toda a gente branca – pelo menos, dos que não desistiram, como eu já desisti – é ganhar uma corzinha. É uma corzinha roxa, verde ou grená que queremos ganhar? Não, é preta. Nós queremos ficar morenos, mulatos, pretos. Excepto o Trump, que quer manter um sólido laranja durante todo o ano. Mas as pessoas normais querem ficar mais pretas.

Fotos nas redes sociais, falemos sobre fotos nas redes sociais: alguém põe um filtro que aumente a luminosidade e nos ponha mais brancos? Tirando os emo (ainda existem?), não, toda a gente que usa filtros, usa-os para ganhar mais cor, para ficar mais preto do que branco. Até o filtro preto e branco tem mais preto do que branco. E se desse para pôr filtro na macheza? Ah, com certeza que queríamos ser mais pretos! E é preto, mesmo, não é “pessoa de cor”. Pessoas de cor somos todos, cada um com a sua, mesmo aquela que não se vê, que é a da massa cinzenta, que nem toda a gente tem.

Mas João, não há racismo entre pessoas negras? Claro que há. Também há de brancos com brancos, magrebinos com magrebinos, chineses com morcegos… não, infelizmente não, mas isso resolvia muita coisa. Só que isso não é desculpa para se perpetuar o racismo, seja entre quem for. É algo que demora a mudar, mas que dá para mudar. Nós chegámos há uns anos aqui, temos séculos para trás, em que muita coisa mudou e demorou a mudar, temos muitos séculos pela frente, em que muita coisa vai mudar e demorará a mudar. É preciso é começar já a tentar, para se conseguir rapidamente, embora para já, como diz o título, vá ficar tudo na mesma, apenas no sentido em que não vai ficar tudo bem. Não vai ficar, porque ainda não está tudo bem.

Mais: quando a pandemia cá chegou, começou pelo norte, onde orgulhosamente sempre vivi. As indústrias têxteis e do calçado estão cá, foi tempo de feiras em Itália, trouxeram de lá o bicho. Tudo certo. Nada a ver com baixo grau de instrução, usar máscaras ao contrário, o que seja. Agora, o pico passou para a Grande Lisboa, porque… cenas. Sim, mesmo eu tenho esta mentalidade do Norte (porque é sempre o Norte, é tudo uma massa uniforme) contra o poder central. Tenho esta mentalidade, mas queria mudá-la, em mim e nos outros. Mas não depende só de mim, nem sou eu, com o meu grão de areia no meio de 11 milhões, que perpetuo esta diferença entre a província e os outros, entre os que não sabem falar direito e os que chamam “riu” ao Tejo.

Tudo isto para dizer que, aparentemente, não chegamos ao nível de uns Estados Unidos ou de um Brasil, em que o racismo grassa e ainda por cima é suportado pela liderança patética. Mas se não abrirmos os olhos, por Ventura lá chegaremos. O racismo está em todos nós, mesmo que escondido. Há que admitir o problema, deitá-lo cá para fora, manifestar, sim, mas com distância social, sem perder a razão, e eliminá-lo, sem medos, sem fobias. Sem xenofobias e sem homofobias, também.

Sobre o autor:
Tenho dois apelidos como os pivôs de telejornal, mas sou o comunicador menos comunicativo que há. Bom moço, sobretudo.

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