Revista Rua

2021-05-06T10:09:56+01:00 Cultura, Música, Personalidades

Valter Lobo, o solitário que canta ao mundo para despertar vontades

A tempo de ouvir o mais recente projeto discográfico, sentámo-nos à conversa com Valter Lobo.
Fotografias ©Nuno Sampaio
Maria Inês Neto5 Maio, 2021
Valter Lobo, o solitário que canta ao mundo para despertar vontades
A tempo de ouvir o mais recente projeto discográfico, sentámo-nos à conversa com Valter Lobo.

Apresenta-se como um “lobo solitário” que canta ao mundo tudo aquilo que o inspira. Ao terceiro álbum de originais, Valter Lobo continua a premiar-nos com um repertório de canções em português, escritas pelo próprio, que nos falam de amor, mas também nos despertam os sentimentos mais ocultos no nosso âmago, num exercício de melancolia-intencional que provoca e surpreende.

A tempo de ouvir o mais recente projeto discográfico, sentámo-nos à conversa com o artista nortenho para nos falar da liberdade de ser despretensioso e das vontades que nos desperta com este Primeira parte de um assalto – um álbum de nove temas originais que será lançado brevemente.

De regresso aos palcos, começo, precisamente, por perguntar de que forma vives esta fase de recomeço com a apresentação de um novo álbum?

É sempre uma sensação de recomeço, quase como uma nova vida, embora não me possa queixar muito porque fui tendo algumas atividades durante o período de confinamento. Mas é sempre bom, porque a música realiza-se com as pessoas à frente e não através de um ecrã. Senti que os espectadores mais assíduos estavam sedentes e fui muito bem recebido – a menos que me tenham enganado (risos).

Novamente com salas cheias, estavas à espera de que o feedback fosse tão positivo?

Não estava, mas numa perspetiva em que não me acho muito reconhecido. Não tenho uma grande influência nas rádios – nas quais não passo há muito tempo -, nem na televisão ou até mesmo nas redes sociais. Mas acabo por ficar muito surpreendido por, em poucos dias, as pessoas comprarem logo os bilhetes e irem para os concertos um pouco “às escuras”. Disse que ia tocar o álbum novo sem que ele tivesse ainda saído e as pessoas vêm na mesma. E isso é uma sensação ótima. Acho que vêm pelo momento e pelo imaginário que eu trago. Digo sempre que nunca dou concertos, mas trata-se de um encontro entre mim e outras pessoas. Falo muito e abertamente – não sei se por vezes demasiado (risos) – mas tento criar uma espécie de encontro.

Este álbum mais recente começou a ser editado no verão do ano passado. Percebi que acabaste por alterar algumas das canções, por não te identificares com elas no momento que vivemos. Que impacto teve a pandemia na concretização deste álbum?

Estava a criar um disco e as canções tinham uma vertente mais feliz, mas com a pandemia deixei de me identificar com elas e decidi criar umas novas. Regravei-as porque era o que fazia mais sentido.

E que “assalto” é este? O que é que procuraste trazer para este disco ou em que é que te inspiraste para o compor?

Refiro-me sempre a um assalto que é emocional. No fundo, as minhas canções são todas um bocado isso: falar de sentimentos – e não é só de amor. Há a parte amorosa, familiar e até um pouco de erotismo e parece que revisito uma série de emoções. É mesmo um “assalto” no sentido de despertar sentimentos nas pessoas. Falo desde continuar a ter esperança enquanto houver uma luz ou, por outro lado, contentarmo-nos com o privilégio de estarmos juntos, porque o nosso maior bem é esse: estarmos tranquilos com o básico e o essencial. Há também um lado muito familiar e acabei por dedicar uma canção ao meu filho – acaba por ser uma coisa esperançosa, mas “negra” – e é algo para ele poder ouvir quando eu já cá não estiver.

Intitulas-te como “lobo solitário a cantar o mundo”. É desta forma que te revês enquanto artista? O que é que procuras, precisamente, cantar ao mundo?

Digo muito que sou um “lobo solitário”, porque, para além de ter a ver com o meu apelido, Lobo, faço as coisas de uma forma muito independente. Faço quase tudo, escrevo as canções, preparo o disco… e não faço parte de uma família ou grupo musical. “Cantar o mundo” tem a ver com a minha vontade de ir cantando ou escrevendo sobre o que vejo – pode parecer um clichê, mas é pura verdade. Procuro sempre ser inspirado ou inspirar os outros. Adoro ver pessoas a mudar e, mais do que isso, incentivá-las para a mudança.

Ao terceiro álbum, continuas a premiar-nos com temas em português. Esta é a base que rege todo o teu trabalho? Que importância tem para ti escrever e cantar em português?

(risos) Costumo dizer que é a única língua que eu domino mais ou menos. É a forma mais correta de me expressar. Acabo por me dirigir a um público mais ou menos geral, mas falo de coisas que são familiares a todos – ao país e à comunidade. Mas acho que cada artista deve fazer aquilo que é para si o melhor e que sente que é a forma ideal para se expressar. É manter uma identidade e ser genuíno.

Recuando ao início da tua carreira, como é que se inicia o teu percurso na música? Quem eram as tuas inspirações ou o que é que te motivou a lançar um EP?

Deixar um escritório de advogados. Acabei Direito e suspendi a minha inscrição na Ordem. Mas cheguei a uma fase em que senti que precisava de mudar. Sempre toquei em casa e cheguei a ter uma ou outra banda completamente amadora, mas comecei a agrupar canções e parti para uma gravação. Acabou por correr bem, mas nunca o fiz com qualquer pretensão de ter algum sucesso. Até porque eram canções tristes de inverno (risos). Depois chegou Mediterrâneo, mas sempre numa vertente mais melancólica.

Não tenho uma grande influência nas rádios – nas quais não passo há muito tempo.

Fotografia ©Nuno Sampaio

Interessa-te despertar essa melancolia?

Sim, é muito o que eu ouço e talvez um pouco daquilo que eu sou. Digo uma ou outra piada, mas nas entrelinhas, porque há sempre uma melancolia à minha volta. É o mais fácil para mim, porque é puro e verdadeiro.

Finalizo a entrevista com um recuo à pergunta inicial. Novamente em digressão, já passaste por alguns palcos, tendo atuado recentemente no Teatro Sá da Bandeira, com sala cheia. Como é que está a ser o feedback a este novo disco?

Tem sido muito bom. Mas se não criarmos demasiadas expectativas perante alguma coisa, qualquer feedback positivo é ótimo. Essa é sempre a minha ideia. Estou sempre à espera de que as gostem das canções e que me digam que as influenciaram, mas nunca à espera de ser um hit.

Ainda em fase de lançamento, que projetos podemos esperar para os próximos tempos?

A agenda está a compor-se aos poucos, mas também não queremos fazer uma grande tour. Até setembro já temos alguns concertos marcados e vamos passar por sítios muito bonitos – como todos em Portugal. Tenho sentido um interesse por parte de seguidores no Brasil e, ainda que para já não seja a altura certa, queremos muito ir lá. Curiosamente, comecei a escrever cartas à mão e a enviar quando as pessoas compram os discos diretamente a mim e elas muitas vezes respondem. Há uns tempos enviei quase 200 cartas e está a ser muito engraçado (risos). Começara-me a pedir para escrever letras ou pequenos versos à mão, quase como uma ilustração, e isso deu-me a ideia de fazer um pequeno livro com compilações das minhas letras, dos meus rascunhos e acordes, como um soundbook para as pessoas as poderem tocar. Sou despretensioso e acho piada ao facto de as pessoas gostarem de um objeto quase artesanal. Também gostava muito de gravar versões em vinil dos meus discos, porque tenho alguns pedidos e é algo que eu gosto muito também.

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