Revista Rua

2020-11-02T11:41:30+00:00 Descobrir, Viagens

Ventozelo: uma quinta onde cabe o Douro por inteiro

Ventozelo é a intensa unificação de uma riqueza patrimonial que nasce de uma vontade de unir o passado e o futuro.
©Nuno Sampaio
Maria Inês Neto
Maria Inês Neto23 Outubro, 2020
Ventozelo: uma quinta onde cabe o Douro por inteiro
Ventozelo é a intensa unificação de uma riqueza patrimonial que nasce de uma vontade de unir o passado e o futuro.

Acolhidos pela típica receção duriense – calorosa e tranquila – chegamos ao Ventozelo Hotel e Quinta para uma experiência imersiva num incrível tesouro a céu aberto: o Alto Douro Vinhateiro, bem como toda a sua história, as suas gentes, os seus costumes. Situado em Ervedosa, um concelho de São João da Pesqueira, Ventozelo é um sítio especial, quase indiscritível ao ponto de podermos dizer que o tempo para ali, num convite a saborearmos o silêncio para ouvirmos o que o Douro tem para nos contar.

Adquirida em 2014 pelo grupo Gran Cruz, a Quinta de Ventozelo assume-se como uma viragem estratégica da marca, que desde o início procurou transformar o projeto numa importante referência turística e cultural da região do Douro, potenciando os seus valores intemporais: a história, a paisagem e a gastronomia. Preservando ao máximo o conjunto de edificações que já existiam aquando a aquisição da quinta, o objetivo primordial no processo de requalificação passava por acrescentar apenas contemporaneidade, sem perturbar a paisagem e preservando as suas raízes. Muito além de um projeto de enoturismo, Ventozelo é a intensa unificação de uma riqueza patrimonial que nasce de uma vontade de unir o passado e o futuro, através de um conceito compósito, para que a sua história perdure no tempo e seja permanentemente escrita.

Durante os dois primeiros anos, terá sido necessária a requalificação de uma parte significativa da vinha – cerca de 40 hectares, num total de 200 – que se encontrava imprópria para produção vinícola de excelência. “Celebramos o negócio em dezembro de 2014, numa altura em que tinha acabado de acontecer a apanha da azeitona, pelo que o primeiro produto que lançámos foi o azeite, já com uma imagem definida por nós”, explica-nos a brand manager do grupo Gran Cruz, Elsa Couto, acrescentando: “Segue-se a produção de vinho e posteriormente do gin. Agora estamos também a trabalhar na área das compotas e dos produtos complementares, mas é necessário ainda apurar a técnica, porque queremos que seja tudo feito cá”. Hoje, o vasto portefólio da marca já contempla mais de vinte referências utilizadas para produção de vinho, de azeite, de mel e de gin.

Destacando uma simplicidade arquitetónica que se estende aos detalhes da decoração, a reconversão de uma quinta agrícola num projeto de enoturismo ligado à natureza inspirou a procura por transmitir uma sensação de conforto e tranquilidade em todos os espaços complementares. Neste idílico refúgio, encontramos 29 quartos, alguns dos quais isolados ou em pequenas casas, assim como um restaurante, no qual a gastronomia sazonal impera no menu, e um Centro Interpretativo, entre outras tantas propostas de lazer.

As casas e os quartos

Preservando a estrutura original e a raiz arquitetónica de cada edifício encontrado na Quinta, todos os espaços foram reabilitados com o intuito de servirem como quartos, respeitando uma conjugação decorativa mais minimalista, leve e em tons claros. Começamos a nossa visita na Casa do Feitor, que dispõe de seis quartos, sendo um deles para mobilidade reduzida. Esta casa, em particular, terá sido construída em finais do século XVIII e o nome é uma homenagem ao próprio Feitor de Ventozelo – a pessoa mais importante no dia a dia dos trabalhos da Quinta. Passamos para a Casa do Laranjal, situada na zona mais alta, que em tempos serviria de abrigo aos animais da quinta, dispondo agora de cinco quartos duplos, com entrada exterior independente, semelhante aos sete quartos duplos superiores da Casa dos Cardanhos.

Numa ode ao amor, surge a Casa Romântica, um quarto isolado num dos vales interiores da quinta, com uma vista privilegiada para o olival que pode ser contemplada no espaço interior, tanto no quarto como na sala particular. Ao chegarmos aos Balões, deparamo-nos com dois quartos enormes e independentes que outrora serviram de reservatórios para armazenar vinho, tendo sido recuperados e transformados em espaçosas suites, confortáveis e modernas, mantendo o formato esférico e o revestimento interior. Com um acesso exclusivo por um alpendre privado, é possível contemplar a vista sublime sobre a vinha ou, para os mais audaciosos, utilizar o chuveiro a céu aberto.

Ao nos aproximarmos da margem do Rio, encontramos as duas últimas casas da Quinta. A primeira, a Casa do Rio, é uma unidade recatada e tranquila que dispõe de dois quartos duplos, uma sala espaçosa, um terraço com uma vista surpreendente e um amplo logradouro, onde a frescura do rio se funde com o aroma a eucalipto. Mais reservada ainda, encontramos a admirável Casa Grande: a maior casa da Quinta de Ventozelo. Numa posição privilegiada e muito próxima do Rio, esta é a unidade mais exclusiva e caracteriza-se por ter seis quartos (com casa de banho privativa) dispostos em torno de um claustro central, através do qual a luz solar invade todo o espaço. O conforto é garantido em qualquer divisão da casa, tanto nas salas como na biblioteca, destacando o ex-libris da tranquilidade do exterior: a paisagem acolhedora do interior dos vales, a calmaria das águas do rio ou o silêncio prazeroso.

Os aromas de Ventozelo eternizados numa garrafa de gin

Ao chegar ao Ventozelo Hotel e Quinta, encontramos o Jardim dos Aromas, um projeto que se apresenta sob duas finalidades: proporcionar uma experiência sensorial única a quem visita o projeto e dar a conhecer os incríveis aromas que foram encontrados na quinta e posteriormente eternizados em cada garrafa do Gin de Ventozelo – uma outra importante referência no portefólio da marca. “A que é que cheira Ventozelo?” terá sido o ponto de partida para este projeto de investigação, a cargo do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar, em parceria com o Cantinho das Aromáticas, sendo que o blend botânico final foi macerado em álcool vínico e conseguido por destilação de vinhos da Quinta de Ventozelo. Assim, podemos desvendar oito aromas característicos da quinta, numa perfeita fusão entre notas frescas e cítricas: coentros, tomilho bela-luz, tomilho limão, rosmaninho, hortelã, limão, perpétua-roxa e zimbro.

Paralelamente, encontramos o Centro Interpretativo, construído num dos edifícios mais importantes da quinta – datado do século XVIII – que procura contar a história do Douro, através de iniciativas sensoriais e lúdicas. Para Jorge Dias, diretor-geral da Gran Cruz em Portugal: “Uma visita demorada, atenta e bem explicada a Ventozelo permite explicar o que é o Douro na sua diversidade: a sua espessura histórica, por um lado, mas também a vertente ecológica e patrimonial. Esse é o nosso grande desafio”, acrescentando: “Quisemos proporcionar duas vontades: ver as estrelas e ouvir o silêncio”.

Na Cantina prevalece o respeito pela sazonalidade

Fiel à sua origem, a Cantina apresenta-se como um espaço que procura ser, simultaneamente, um restaurante e um wine bar, no qual é possível saborear o melhor da gastronomia regional do Douro e de Trás-os-Montes. Respeitando a sazonalidade dos produtos, a época do ano e o impacto ecológico, o menu alterna a cada semana, privilegiando as colheitas da própria quinta ou, então, de produtores vizinhos. “Queremos apoiar os produtores locais e promover a parceria com a região. A nossa cozinha é baseada numa bacia hidrográfica grande, não apenas limitada à região do Douro, mas toda ela pensada nesse sentido”, conta-nos Elsa Couto. Também o diretor do Ventozelo Hotel e Quinta, João Paulo Magalhães, concorda: “Queremos ficar mais agarrados à sazonalidade, porque sem os produtores locais não há história”.

Para a Gran Cruz, enquanto líder na exportação de Vinho do Porto, esta aposta num projeto de enoturismo veio complementar a intensa oferta da marca, encerrando um ciclo que acompanha todos os estágios da produção vinícola: da vinha à garrafa. Inaugurado em finais do ano passado, o Ventozelo Hotel e Quinta veio conquistar um marco especial no vasto repertório da empresa e um passo importante na exaltação dos valores naturais e patrimoniais do Douro. “Esperamos que finalmente o enoturismo seja um produto que se afirme em Portugal, não apenas pelas visitas às adegas ou as provas de vinhos, porque deve ser muito mais do que isso. Deve permitir, a quem nos visita, uma experiência completa à volta deste universo fascinante que é o vinho. Podermos mostrar os ecossistemas, o respeito que temos pelo ambiente, a história que encerra cada um dos projetos, a gastronomia … é o que enriquece um destino. O enoturismo acaba por se afirmar como um instrumento de desenvolvimento dos territórios rurais”, termina Jorge.

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