Revista Rua

Vera Casaca: “Quero contar histórias que me entusiasmem”

A realizadora e argumentista portuguesa está em entrevista na RUA.
Vera Casaca, realizadora e argumentista
Andreia Filipa Ferreira
Andreia Filipa Ferreira28 Maio, 2020
Vera Casaca: “Quero contar histórias que me entusiasmem”
A realizadora e argumentista portuguesa está em entrevista na RUA.

Vera Casaca é uma jovem realizadora e argumentista natural da Fuseta (Algarve) e, com um percurso “pouco ortodoxo”, como a própria refere, destaca-se com trabalhos com um importante toque de comédia – às vezes absurda e surreal. Ao Telefone com Deus, com Ivo Canelas, e Se Poirot Estivesse Aqui, com Mariana Monteiro, são dois projetos com assinatura da realizadora que, apaixonada pela literatura, garante que há espaço para boas histórias no cinema português. Numa entrevista realizada num tempo que dava um filme – graças à pandemia mundial -, apresentamos Vera Casaca e a sua odisseia em busca de histórias que a entusiasmem.

Vera Casaca é a realizadora de filmes como Ao Telefone com Deus e Se Poirot Estivesse Aqui

Podemos conhecer o início deste seu percurso enquanto realizadora e argumentista? Como surgiu o interesse por esta profissão?

Tenho um percurso pouco ortodoxo enquanto realizadora. Sou natural do Algarve, Olhão/Fuseta, localidades plantadas à beira-mar. Sempre gostei de cinema, música, contar histórias e de ciência. Aos 17 anos ganhei uma competição de escrita sobre ficção científica e levaram-me aos Estados Unidos, para visitar a Nasa – Kennedy Space Center, o que para uma miúda que nunca tinha viajado foi como ir à lua e plantou-me com o bichinho da escrita. Mas a nível profissional não foi uma jornada linear. Apesar de ter pais muito permissivos, senti que tinha de estudar e ter um trabalho a “sério”. E assim o fiz, doutorei-me em ciências na Alemanha onde vivi durante muitos anos. Foi desafiante, mas não me sentia realizada. Foi aos 29, depois de ponderar durante dois anos, que fiz as malas e fui para Nova Iorque estudar cinema. Senti que precisava de arriscar e fazer algo a longo prazo onde me pudesse expressar artisticamente. Não me arrependo do meu percurso sinuoso. Antes morei na Inglaterra porque fiz lá o mestrado. Com o tempo desenvolvi um quase total desapego de bens materiais, pois quando vives a mudar de país em país não consegues levar tudo contigo numa mala. O ano passado, antes da pandemia, mudei-me uma temporada para Macau para lecionar argumento, e consegui sobreviver dois meses com um pequeno troley. Estou pró. Claro que todas estas vivências me permeiam enquanto mulher e realizadora.

O que é que Nova Iorque lhe ensinou? Foi uma experiência enriquecedora para si enquanto realizadora?

Nova Iorque é como beber dez Red Bulls de uma assentada. Somos expostos a uma enorme quantidade de eventos, exposições, concertos, atividades, pessoas de todo o tipo de background.  É muito diferente visitar e morar, ter responsabilidades, horários a cumprir, criar amigos, conhecer profissionais, pagar contas, desenvolver uma rotina, etc. Tens de entrar no ritmo ou a cidade devora-te. A nível criativo nunca me senti tão produtiva, pois como estava rodeada de amigos e colegas relacionados com o cinema que estavam sedentos por fazer coisas, entreajudávamo-nos em pequenos projetos. Enquanto argumentista/realizadora ajudou-me a compreender que necessito deste ritmo, mas também de momentos de introspeção. Às vezes ficava um dia em casa sem falar com ninguém para poder digerir o excesso de informação visual e sonora de tudo o que me rodeava na cidade e poder ser criativa.

A passagem por Nova Iorque foi uma experiência marcante para a realizadora portuguesa

“Nova Iorque é como beber dez Red Bulls de uma assentada. Somos expostos a uma enorme quantidade de eventos, exposições, concertos, atividades, pessoas de todo o tipo de background.”

Ao Telefone com Deus foi um dos seus primeiros projetos. Explique-nos em que consistia e quais os principais desafios com que se deparou.

O filme é uma comédia absurda e surreal que no seu âmago retrata a forma como tratamos os nossos amigos quando nos apaixonamos. Muitas vezes passam para segundo plano. Utilizei uma espécie de fábula em que a personagem, interpretada pelo ator Ivo Canelas, troca a sua melhor amiga, Pestava, uma égua, para se casar com uma mulher sedutora, mas perversa (interpretada por Sara Matos). A personagem do Ivo é ajudada por um homem que pode literalmente falar com Deus ao telefone, papel interpretado pelo veterano do palco e da televisão, Luís Vicente.

Nas filmagens senti-me jogada aos leões. As pessoas no set tinham anos luz mais experiência que eu. Tive de “crescer” de forma abrupta, e como não há crescimento abrupto sem dores nos ossos e estrias, a mim doeu-me. Houve um dia que a pressão era tão grande que fui para trás de uma árvore (estávamos a filmar no campo) e chorei. Dormi muito pouco durante os três meses de pré-produção e quatro dias de filmagens. A logística era de loucos, trazer os atores e alguma equipa para o Algarve, arranjar estadias, almoços, jantares, catering, pagar transportes, trazer um animal de grande porte e fardos de palha, trabalharmos no meio de catos, colmeias, com 35 graus, colocar secretárias no meio do deserto, arranjar as roupas, criar um cenário de acampamento colorido e mágico, carregar as baterias longe porque não tínhamos eletricidade, foi muita, muita coisa para gerir. Estarei sempre grata aos atores, produtora, equipa e colaboradores que nos ajudaram. O projeto não foi financiado, e foi produção talvez demasiado ambiciosa. Sinto orgulho nisso.

Set de filmagens do filme Ao Telefone com Deus

“Houve um dia que a pressão era tão grande que fui para trás de uma árvore (estávamos a filmar no campo) e chorei.”

Falando agora de um outro projeto: Se Poirot Estivesse Aqui. É um projeto com uma vertente de comédia, não é? Conte-nos o ponto de partida para esta ideia e a experiência em termos de filmagens.

Foi maravilhoso. Não consigo separar-me enquanto pessoa e profissional. A verdade é que estava a atravessar um momento muito negro e doloroso na minha vida. Durante meses não sentia razão para me levantar da cama. Um dia pensei que para me erguer precisava de um forte motivo e voltar a escrever e filmar foi o gatilho. Foi assim que surgiu Se Poirot Estivesse Aqui. Lembrei-me de uma história que me tinham contado sobre uns familiares que foram para a casa de outros passar férias sem os avisar. Achei a premissa anedótica e depois pensei que tinha de criar uma personagem que tivesse um pouco de fobia a pessoas. Nada melhor que uma mulher que duvida de toda a gente e mergulha em teorias da conspiração. Assim nasceu a Ermelinda, obcecada pelos romances policiais, o seu marido pasteleiro e demasiado ingénuo e a tal “convidada” que nunca sabemos bem quem é, mas que se infiltra na casa deles. As personagens foram interpretadas pela atriz Mariana Monteiro, Eduardo Frazão e Cucha Carvalheiro. Para além de serem extremamente versáteis enquanto atores, são criativos e perspicazes naquilo que fazem, e ainda são gente de bom coração. Quero trabalhar novamente com eles.

Se Poirot Estivesse Aqui foi, mais uma vez, uma produção sem financiamento, apenas com a ajuda de uma produtora local e colaboradores. Tomei a decisão consciente de filmar tudo na minha casa onde pudesse partir, pintar, furar, arrastar móveis, tudo o que fosse necessário sem dar satisfações a ninguém. Queria liberdade, bom ambiente e divertir-me.

A Vera é uma assumida apaixonada pelos policiais de Agatha Christie e Arthur Conan Doyle. A literatura é sempre um importante ponto de partida para o bom cinema?

Obrigada por esta pergunta. A literatura é de extrema importância para mim. Ao Telefone com Deus tem, de forma inconsciente pelo menos na altura em que o fiz, elementos do mundo do colombiano Gabriel García Marquez. García Marquez é conhecido como o pai do realismo mágico e eu sou apaixonada pela ruralidade, excentricidade e absurdo com que ele tece as páginas. E a minha paixão pelas coletâneas policiais entrelaçou-se no Se Poirot Estivesse Aqui. A literatura não me influencia apenas diretamente no cinema, mas sim como pessoa. Leio frequentemente – e mais do que um livro em simultâneo. Agora encontro-me a ler um livro sobre os primórdios da pintura e estou a ler a biografia do poeta e dramaturgo Federico García Lorca.

Ator Ivo Canelas em Ao Telefone com Deus

Enquanto realizadora, vê o cinema português numa fase de crescimento? Qual é a sua visão sobre a área do cinema em Portugal?

Hum… pergunta difícil. A minha visão é positiva, espero que a produção continue a crescer. Gostaria que houvesse uma maior diversidade nos apoios tanto para a produção das obras como para os artistas. Mas sou sincera e realista, é inevitável não pensar na situação atual. Pessoas sentadas lado a lado, numa sala de espetáculo ou de cinema, fechadas durante duas horas, está a parecer-me uma miragem. Claro que se pode (e deve) ver filmes em casa, mas a experiência sensorial não é equiparável. Mas acredito que melhores tempos virão.

O que considera mais desafiante nesta área?

A incerteza. Trabalhar em cinema, ou nas artes em geral, é um trabalho inconstante e de natureza precária. Pessoalmente encontro duas dificuldades, mas quando vim para esta área assumi este risco. O primeiro é a nível financeiro. O segundo é mais íntimo – e são as fases pessoais de ansiedade e dificuldade criativa. Ou adoramos aquilo que fazemos ou não haverá resiliência para aguentar.

Set do filme Se Poirot Estivesse Aqui

Ser realizadora e argumentista traz consigo a responsabilidade de contar boas histórias. O que pode ser uma boa história, a seu ver?

Não sinto “responsabilidade”. Mas explico. Uma boa narrativa, uma boa pintura, uma boa música ou história é subjetivo. Há pessoas que adoram um filme e outras que o detestam. Já passei por isso, de um lado da moeda tive quem aniquilasse Ao Telefone com Deus, por outro lado ganhei um par de prémios e convites para mostrar o filme. A responsabilidade que sinto é para comigo mesma, quero contar histórias que me entusiasmem. Eu tenho de acreditar que são boas histórias, que as personagens estão bem desenvolvidas, que tem um princípio, meio e fim, mas que acima de tudo, que eu sinta prazer em desenvolvê-las.

Uma das questões que gostaríamos de colocar – tendo em conta também um livro que prepara sobre as mulheres realizadoras na História do Cinema – tem a ver com o posicionamento da própria mulher neste universo. São poucas as mulheres a exercer a profissão e são ainda menos as mulheres consideradas para prémios de realização na Academia, em Hollywood, por exemplo. Qual é a sua opinião sobre este assunto e o que já teve oportunidade de aprender com a sua pesquisa?

A ideia de escrever este livro nasceu há uns anos quando, por acaso, vi uma série de filmes maravilhosos que foram realizados por mulheres e questionei-me sobre o porquê de tanta diferença na indústria. Também quando perguntei a algumas pessoas para enumerarem nomes de realizadoras praticamente não conseguiam. O livro não trata do tema de uma perspetiva histórica ou em termos ou analítica, mas sim de uma perspetiva pessoal. Tenho conhecimento sobre estudos feitos, mas não foi o caminho que quis enveredar neste livro.

Contado de forma informal, quase como um diário, abordo vinte e poucos filmes que vi e como me relacionei com eles. Espero atiçar a curiosidade das pessoas para verem mais filmes realizados por mulheres.

A título de exemplo, o ano passado estava no Japão e comecei a escrever sobre a minha experiência lá e como dois filmes passados em Tóquio me tinham tocado. Pastelaria de Tóquio e Lost in Translation, Naomi Kawase e Sofia Coppola, respetivamente.

Mas também falo de filmes e realizadoras menos conhecidas que fizeram trabalhos de alto nível e quase ninguém ouviu falar. Não me cingi geograficamente e apresento realizadoras da Rússia, Líbano, Arábia Saudita, etc. O objetivo é enaltecer e salientar estas mulheres, não martirizar sobre a discrepância de género que já todos temos conhecimento. Ou seja, não quis gritar “As mulheres realizadoras não têm a mesmas oportunidades!”, é mais “Nem sabem o que estão a perder ao não conhecerem estes trabalhos!”. É um grito de Ipiranga positivo e pessoal.

Vera Casaca é uma assumida apaixonada pelos policiais de Agatha Christie e Arthur Conan Doyle.

Durante o último ano, tivemos pelo menos dois filmes de realizadores portugueses que surpreenderam o público pela positiva: falamos de Variações e de A Herdade. De alguma maneira, o sucesso destes dois filmes pode ser assumido como um ponto de viragem no cinema português? Considera que o público estará agora mais predisposto a ver filmes portugueses?

Todos sabemos que é difícil convencer os portugueses a consumirem cinema nacional. Os dados do Instituto do Cinema e Audiovisual (ICA) mostram a diferença vertiginosa entre o número de espetadores nas salas de filmes americanos e blockbusters e os que vão ver filmes portugueses. Não são casos pontuais que fazem a diferença, as transformações culturais, e é disso que falamos aqui, levam anos, precisamos que estes casos extraordinários se tornem a norma. Não acredito que tenham sido “ponto de viragem”, mas sim parte fundamental de uma possível mudança positiva, mas lenta.

“Quero continuar a fazer curtas e começar a fazer longas que me permitam experimentar novos elementos narrativos e novas técnicas.”

O que nos falta, neste universo cinematográfico em Portugal, para sermos melhores?

Acredito que maiores investimentos na produção de filmes assim como consumo doméstico iriam criar mais oportunidades para uma maior amplitude de diferentes géneros para agradar a gregos e troianos. Gostava de ver mais comédia, terror, suspense nacional, etc. nos ecrãs.

Assim volto a reforçar que um maior apoio audiovisual é crucial, pois limitações no budget podem refletir-se em limitações na qualidade do produto final e assim como no pouco marketing para atrair os espetadores portugueses.

E o que lhe falta a si? Que rumo gostaria de seguir? Que experiências, em termos de realização, gostaria de dar vida nos próximos tempos?

Quero continuar a fazer curtas e começar a fazer longas que me permitam experimentar novos elementos narrativos e novas técnicas. O que me falta? Falta-me muito. Estou sempre a fazer workshops, ver filmes, ler, a tentar compreender melhor a natureza humana e o que me rodeia. Sinto-me verde e ignorante. E isso é o melhor sítio para se estar. Porque aí há sede de aprender e melhorar. Se sentir que já sei tudo, ficarei numa caixa estagnada e ilusória. Isso entendia-me. Penso sempre, como é que melhoro? Como é que, apesar de ser comédia, consigo melhorar a profundidade da personagem, como posso aprender mais sobre a psicologia das cores, o que ainda não sei sobre sound design, como cresço enquanto pessoa e artista? Sou compulsiva nestas coisas.

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