Revista Rua

2019-10-18T17:06:24+01:00 Opinião

Vidas vividas

Crónica
Francisco Santos Godinho
11 Outubro, 2019
Vidas vividas

Vidas vividas, não essas misérias com pernas que vêm cá a casa pedir o meu dinheiro, nem esperam que eu morra, querem a herança em vida, isso é que me importa, vidas vividas, dizia uma mulher para a outra que escutava atentamente com um sorriso esmaltado já a desbotar e rematando que não se pode falar disso assim, que é uma falta de respeito e pergunta

– Mas que herança é que querem? É o dinheiro?

pensando melhor, o dinheirinho ainda dava jeito, já lá iam sempre nos fins de semana almoçar, pediam uma notinha ou outra para esta e aquela despesa, isto em novos, agora uma das sobrinhas interessadíssima num conjunto de escovas em prata que eu nem me importava de lhe dar, são de casquinha, não valem um chavo, nem as usei sequer, mas o espelho de mão, recuso-me terminantemente e a outra mulher

– Terminantemente?

que interesse há no espelho, outro traste de casquinha para meterem no prego com o resto das coisas e umas férias melhorzinhas talvez, para contar aos vizinhos e que revolta que não entendam, não concebo, calo-me sempre que falam no espelho e não compreendem que o silêncio desta casa tem tanto espaço para a voz das minhas filhas em pequenas, não arranjo algo pior do que esta clausura onde me encerro dentro de mim e dentro de mim outras pessoas, as minhas filhas em pequenas, a minha irmã mais velha desgostosa das minhas sobrinhas, ou seja, desgostosa das filhas e eu que se vier ao vão da escada ainda noto pelo cheiro a terra que traziam nos pés ao vir do quintal, não pode ser que me reclamem amor desta forma, não pode ser que me apareçam sem aparecer só pelo cheiro de terra, exigindo o espelho, entendem, pelo cheiro da humidade, diferente do da despensa, uma humidade que reconheço, a da despensa não sei o que é e

– Terminantemente?

por momentos estava em casa e as minhas sobrinhas pequenas a vir do quintal, mas a pergunta e o espelho que me mexe com a tensão e uma tontura muito leve só às vezes, mas

– Sim, terminantemente.

Sobre o autor
Licenciado em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade do Porto. Autor do livro Sentido dos dias e da página Francisco Santos Godinho. Escritor. Luto contra o tempo de caneta na mão.

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