Revista Rua

2020-10-26T14:19:41+00:00 Cultura, Fotografia

Visões fotográficas de Ivo Canelas expostas em Loures

O mundo cinematográfico em formato fotográfico de Ivo Canelas encontra-se agora exposto pela primeira vez na Galeria Municipal Vieira da Silva em Loures.
Cláudia Paiva Silva
Cláudia Paiva Silva26 Outubro, 2020
Visões fotográficas de Ivo Canelas expostas em Loures
O mundo cinematográfico em formato fotográfico de Ivo Canelas encontra-se agora exposto pela primeira vez na Galeria Municipal Vieira da Silva em Loures.

Visões a preto e branco, jogos de sombras, cenários pouco usuais e personagens aleatórias são o resultado da objetiva de Ivo Canelas, para quem o interesse pela fotografia nasceu por mera curiosidade ao testar máquinas antigas do avô e fotografando composições curiosas criadas por ele próprio, como revelou à Revista RUA durante a inauguração de Suspension of Disbelief.

Passaram, no entanto, alguns anos desde essas primeiras experimentações, até ao dia em que Ivo viu revelado numa polaroid o surpreendente efeito da luz ao entardecer em contraste com o Castelo de Óbidos. Outros tantos anos se passaram então, dedicados ao estudo da representação, aos palcos, às formações internacionais, mas que na verdade apenas tornaram o ator ainda mais curioso do que o rodeava. Em Nova Iorque, já com o modernismo das máquinas digitais e telemóveis, Ivo diz que se torna em meramente mais um personagem dos milhares que cirandam pela cidade. Acrescenta que o tornar-se invisível aos outros dá uma maior segurança e à-vontade para fotografar a belo prazer. Com o surgimento de plataformas como o Instagram, a vontade em partilhar esses registos torna-se maior, mas sem qualquer intuito em obter likes, uma vez estas imagens não “partilham da lógica híper-alegre”, como justifica, da aplicação. A juntar a isto, o suposto desinteresse dos utilizadores contrasta com a liberdade criativa que permite fotografar o que se quiser, quando se quiser, ao ritmo que se pretenda. “Além de fotografar caras, gosto do que não se vê, das sombras. Mas isto é um hobby para mim (não domino a técnica), pelo que também colmata o meu lado de ator, permitindo-me a olhar para coisas que não eu próprio – olhar para fora”.

O preto e branco surge porque se torna mais fácil de trabalhar os tons. As fotos a cores de Ivo, raras, e que não estão expostas nesta mostra, são geralmente sobressaturadas, não sendo realistas, ganhando uma estética que Ivo compara com imagens antigas de panfletos ou “com os livros da Anita”. De 200 fotos a preto e branco, 1 será a cores, e será sempre mega saturada. Para a captura das imagens usa, na maior parte das vezes, a máquina digital que traz à cintura e raramente o telemóvel. Ivo também declara que o fascínio pelo Instagram advém do facto de “qualquer pessoa, quer trabalhe numa loja, ou seja caixa de supermercado, consiga tirar fotos no momento, aparentemente extraordinárias e supostamente insólitas, mas que na verdade revelam o dia a dia, que são profundamente documentais e são uma perspetiva do que está a acontecer. O fotógrafo “a sério” não deve ter medo pela quantidade de fotografias que aparecem, mas deverá reconhecer no amador o potencial talento”.

Em relação à atual importância da fotografia, Ivo revela que “o maravilhoso das imagens é que podemos levar a mensagem do que está a acontecer perpetuamente. É um registo da atualidade, tem um espaço tão ou mais válido do que os produtos que são vendidos através das mesmas aplicações de imagens e permite, enquanto exercício de ator, em nos colocarmos “dentro da fotografia”, do acontecimento. A fotografia permite parar o tempo enquanto nos concentramos a olhar para ela. É uma forma de controlo nesta passagem tão rápida, em que posso focar a olhar e estico a relação com o tempo/espaço”. Contudo, para Ivo, as imagens partilhadas em rede têm todas o mesmo poder imaginativo, sejam compostas, naturais, hipersaturadas, não havendo para ele qualquer distinção entre a imensidão de fotografias.

Terminando a entrevista, falando sobre a relação entre o ator e o fotógrafo amador, na medida em que um poderá influenciar o outro, Ivo explica: “Enquanto ator, sinto que se tenho tempo para me dedicar ao que estou a fazer com alguma profundidade acho muito interessante observar-(me) e àquilo que me interessa, e ir mudando consoante aquilo que tenho de trabalhar, ajudando-me também a entender onde tenho a minha cabeça, onde a minha sensibilidade está mais afinada, dentro das temáticas. Sinto que é sempre o ator que afina a fotografia, muito dentro do conceito de street photo, documental, algum lado mais íntimo entre amigos, e às vezes em coisas esquisitas, estranhezas, pequenos detalhes que eu adoro e que me interessam bastante, não sendo nem bonito nem feio, simplesmente apontamentos que me chamam a atenção”.

Suspension of disbelief, fotografias a preto e branco que nos levam ao lado de lá da imagem, estará patente até 27 de fevereiro de 2021 em Loures em entrada livre, mas condicionada com medidas de segurança ao COVID-19.

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