Revista Rua

2021-09-27T17:27:10+01:00 Opinião

Vista Chinesa, o novo romance de Tatiana Salem Levy

Existe algo na forma de escrever de Tatiana que, mesmo sabendo que nos causa dor, não nos deixa desistir ou abandonar a leitura.
Cláudia Paiva Silva
27 Setembro, 2021
Vista Chinesa, o novo romance de Tatiana Salem Levy

Tatiana Salem Levy volta em 2021 com Vista Chinesa. Um romance em tom documentário, baseado em factos verídicos sobre a violação de uma amiga, num Rio de Janeiro em vésperas de importantes mudanças. Um Rio de Janeiro que não voltou a ser como antes.

Existe algo na forma de escrever de Tatiana que, mesmo sabendo que nos causa dor, não nos deixa desistir ou abandonar a leitura. Talvez por sabermos em antemão que os seus temas são sempre despojados de artifícios, geralmente crus e diretos ao ponto central, ou talvez porque todo o ser humano precise de enfrentar as entranhas do medo, da escuridão, do precipício para se sentir vivo. Algo aqui é certo, Vista Chinesa é talvez o livro da autora brasileira nascida em Lisboa, cidade aliás onde reside há alguns anos, mais duro, cruel e brutal, mas que, ao mesmo tempo, pauta por uma sensibilidade imensa, num permanente conflito entre a sombra e a luz, o Bem contra o Mal.

Percorrendo as críticas literárias entre especialistas e meros leitores, não há qualquer dúvida que este será o melhor livro de Tatiana, mas também não restam dúvidas que será o mais violento. Pegando no acontecimento verídico ocorrido com uma das suas melhores amigas no Rio de Janeiro de 2014, não deixa de ser contemporâneo, embora a autora assuma que esteja longe do ativismo político e social que se lhe possa atribuir. Uma violação É uma violação. Mulher (ou homem) alguma consegue, após sofrer um abuso e invasão de intimidade tão grandes, voltar à sua vida aparentemente normal. E, mesmo que podendo entrar em descrições que deixam qualquer um de nós, leitores, no limbo sem fôlego, no entanto sem nunca se tornar sensacionalista, Tatiana mais do que o crime em si, pretende deixar apenas o legado da (sobre)vivência que nós, mulheres sobretudo, ganhamos na nossa pele. Porque existe todo um universo de perguntas que se colocam em cada vítima ou sobrevivente de abuso sexual, a culpabilização do momento, da forma, do local, da hora, a culpa de não conseguir identificar o violentador, a culpa de nem conseguir lembrar em detalhe os detalhes que antecederam e sucederam ao ato sexual – e aqui se revela a incapacidade dos elementos das forças policiais em tomarem estes crimes como reais, sérios e importantes, mais ainda num país imenso como é o Brasil. Cabe sempre à vítima ter de apontar dedos, mesmo que não saiba nem a quem o fazer, numa procura de “fechar o caso” como se isso resolvesse tudo. No caso de Júlia, a protagonista de Vista Chinesa, o seu relato, escrito em forma de cartas aos filhos que nasceram anos depois do sucedido, é a história do que se passou no após. Entre a dor física e emocional deixadas, às opiniões da família, amigos e da própria sociedade, que escarnam nestas situações de violência extrema simplesmente por se recusarem a enfrentá-las, a dar-lhes nome ou sequer a falar delas. “O facto de a gente não nomear as coisas não faz com que elas deixem de existir, só faz o fantasma crescer” diz a autora a uma entrevista concedida aos media brasileiros. E a sua personagem é exatamente o oposto. Falando das coisas, explicando e analisando o que se passou é a forma de conseguir continuar em frente, com tudo o que isso acarreta. Mudança de hábitos, viver o Medo, olhar-se no espelho doutra forma e ver o seu próprio corpo como se já não lhe pertencesse mais, e, no outro lado da moeda, a sua reconstrução enquanto Mulher e mãe, num caminho de redenção e vitória pessoais. Uma reconstrução pessoal feita ao mesmo tempo que o Rio de Janeiro começava a desmoronar.

Uma leitura que deveria ser obrigatória.

Partilhar Artigo: