Revista Rua

2020-09-28T09:57:08+00:00 Opinião

Vos dispenso a caridade

Crónica
Ana Marques
Ana Marques
28 Setembro, 2020
Vos dispenso a caridade

Há uma… guerra… há uma guerra! Ali. Lá dentro. Sim, nesse interior desconhecido. Oh… já sinto, já sinto!

Quê? Onde? E quem? E o motivo? O que é que sente? O quê? Explique-se!

Não há explicares, não há fórmulas de designação tão perto de catástrofes deste calibre. Oh, o interior… a cavidade já desfeita, de tantos tombos acarretar, tantas coisas suportar…

Enlouqueceu, só pode! De que fala? Quem e onde?

Olhe aquela peleja! Olhe! Ali! E, e… vocês! Fiquem aí, simplesmente. Não tem nada que ver com vocês, que tanto aspirais à descoberta, ao intrometimento, à bisbilhotice! Não há a decifrar o indecifrável, o que não ficara explícito. O segredo mantém acordado o medo e a ânsia de libertar o que o mostrengo quis fixar para dentro, agarrando pelos cornos, meses de tormento, rígidos a fio, tormentos impelidos, trazendo-o para bem perto e tecendo-lhe os gemidos gritantes para albergar uma aventesma. Repito, no interior. Rebramia tanto, na altura… noite sim, noite sim. Eram aqueles os seus dias, suas noites, seu torpor.

E toda ela dizia-me assim: Um passo em falso e poderá acontecer o pior.

E aconteceu…

Não se cerque por lá, mantenha o passo ao largo, nem se atreva a bisbilhotar o olhar para dentro. Apenas se proteja dos estilhaços, já que até aqui quiseste vir. Os restantes, se cá não chegaram tão perto, que se mantenham nas escadas ou desçam. Ou desçam e levem seus corpos para fora, para longe, para um lugar de onde nunca deveriam tentar abrir, instigar, procurar (agora). Não há chave, porque raio haveriam de tentar? Ou há? Se a há, ficou presa, perra, lá dentro, ali, naquele lugar. Oh, a tragédia… já a mim, que ouço tudo, tanto o mal como o bem, me despediram e eis-me aqui a tentar não desesperar também com a restante marcha perdida. Oh, não suporto este desleixo, este desfecho, este fado pessoal e individual… aliás, aquela guerra, como a lamento… mas também sei como os lamentos nada agora servem.

Se consegues, acaba com isso! Acaba! Ouviste?

Como poderei eu, agora, terminar com isto? Não poderei eu fazer mais do que fiz, quando a solidão, essa, essa gaja que aqui chegou e tudo levou, a seu bel-prazer, o que quis e bem entendeu para escorregar e aconchegar a sua excitação e satisfação trocista, pois eu conheço-a como a palma das minhas mãos, se é que elas existem realmente. Ouvi os lamentares, aconcheguei as lamúrias de alguém desprotegido, envolto num beco sem saída, e agora, agora está ali, cercada da guerra, de toda a instabilidade. Não basta trocar olhares de morte (agora), porque tudo isso levou à ruína as chamas, a intensidade.

Daqui a um pedaço de tempo, só restarão os escombros de apenas mais uma, uma guerra cessada, um sangue esvaído, com marcas profundas, sendo deixadas ao acaso num chão repleto de outros tantos epitáfios idênticos, sem remorsos, sem a assombração ao presente como outrora.

Deixe-se disso! Sou profissional, sou agente do bem, quero ir e ajudar! Deixe passar, caramba!

Acha que é agora que a intervenção valerá de algo? Acha? Sinceramente deixais muito a desejar, apesar de vosso labor tão vitorioso. Mas, porquê? Porquê ressuscitar aquele interior, que tanta guerra já despoletou, viveu, e agora nada sobrou? As forças foram-se, se é que ainda perduram naquela luta longínqua que, mais cedo ou mais tarde, se descobrirá ser em vão.

Oh! O… reboado… o ressoar do fim. Agora… agora pode-se ler. Leia-se a franqueza das palavras:

Aqui, jaz quem se libertou dos grilhões,

que é como diz o poeta: «Comeu, bebeu, fodeu, sem ter dinheiro».

Sobre o autor:

Estudo Ciências da Comunicação. Sou uma espécie de Camilo Castelo Branco: escrevo coisas aborrecidas e poucos reconhecem o meu talento. Há quem diga que tenho algum humor, eu digo que emano comédia.

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