Revista Rua

Wandson Lisboa, sem filtros

A entrevista completa ao "ídolo acessível" do Instagram. Já conhece Wandson Lisboa?
Fotografia ©Nuno Sampaio
Andreia Filipa Ferreira
Andreia Filipa Ferreira11 Agosto, 2020
Wandson Lisboa, sem filtros
A entrevista completa ao "ídolo acessível" do Instagram. Já conhece Wandson Lisboa?

Vindo de São Luís do Maranhão, Wandson Lisboa aterrou no Porto há dez anos. O objetivo? Estudar. O imprevisto? Tornar-se o ídolo acessível de Portugal! Com um percurso ligado à criatividade, ao design e ao storytelling, Wandson Lisboa é um dos artistas visuais mais procurados pelas marcas nacionais e soma seguidores no Instagram sem muito esforço. Abrindo-nos as portas de sua casa, Wandson Lisboa pagou finos e recordou momentos vividos num Brasil que o tem deixado tenso. Este é o Wandson… sem filtros!

Fotografia ©Nuno Sampaio

Vamos fazer uma viagem no tempo. Estamos no Maranhão e tu és uma criança. Olha à tua volta e conta-nos: o que vês? Que memórias tens dessa infância?

Eu correndo no meio da rua, indo para casa da vizinha e bater no portão para brincar com as minhas vizinhas. Ver a minha vizinha e a minha mãe a fazer salgadinhos juntas… e eu a ir roubar salgadinhos… ai! (suspiro) Lembro-me que era tudo muito livre. Os meus pais nunca me privaram de nada, de poder criar, de imaginar as coisas. Lembro-me bem de brincar na rua, no sol quente, descalço.

Ficas nostálgico quando falas no passado?

Agora fiquei! (risos) Quando vim para cá, para Portugal, foi um corte muito grande. Cortei muita coisa pela raiz, sem querer. Depois, qualquer momento que me remeta a alguma memória, um cheiro, uma foto, uma lembrança, faz com que eu fique… (suspiro) assim nostálgico.

Sentes que foste uma criança feliz então?

Completamente! Eu acho que começo a ter essa noção quando chego a adulto e percebo que os meus pais me deram muito amor. A minha infância foi tipo uma bolha que os meus pais criaram para mim, mas uma bolha boa! Ou seja, era como se eu vivesse num mundo mágico onde as coisas aconteciam – claro que com responsabilidade, porque nós sabíamos as nossas privações… nunca fomos uma família rica.

Falaste-nos dos cheiros do Maranhão. O que sentes mais falta desse Maranhão da tua juventude?

Eu já estou em Portugal há quase dez anos e, na verdade, continuo a ter vontade de ter um chão. Às vezes ando por aqui e parece que não sinto o calor do chão. Aqui ainda não senti que fosse a minha casa, apesar de todos me terem abraçado com muita força. Tenho sempre saudades de casa… e sempre penso que sou um louco a vaguear por Portugal (risos) Metaforicamente, sinto que ainda não consegui criar raízes aqui. Eu sou uma plantinha num vaso que pode deslocar-se de um lado para o outro. Sou um cato! (risos)

 Alguma vez sentiste que o Maranhão era pequeno demais para ti?

Ah, sim, claro! Já sentia isso lá há muito tempo. Também acho que o meu pai sentia isso – o meu pai é incrível. Eu queria ser maior, mostrar mais coisas, mostrar mais trabalho… e não queria ser amostrado. Eu gosto muito de criar coisas, de mostrar as minhas capacidades e não ter fama. Isso da fama é muito assustador para mim. Fico a hiperventilar! Então, prefiro criar, prefiro me divertir.

Antes de vires viver para Portugal, já davas asas à tua criatividade?

Eu lembro-me perfeitamente da minha primeira apresentação, quando eu era mais criança. Eu fazia parte do grupo de teatro e era sempre o palhacinho – é engraçado que hoje em dia já não curto tanto palhaços! (risos) A minha mãe sempre me envolveu neste mundo da fantasia, de brincadeiras, de bolos de aniversário, de dar vida a personagens. Acho que esses momentos são o que mais me causa saudosismo quando falo da minha infância. A parte da criatividade penso que surge também porque eu consumia muita televisão, muitos desenhos animados. Lembro-me de ficar louco porque queria um CD do Cavaleiros do Zodíaco no meu aniversário e o meu pai teve de ir comigo a correr ao shopping.

Fotografia ©Nuno Sampaio

“Sinto que vim para Portugal numa expedição, brincar e divertir-me com seriedade. Mas o meu chão vai ser sempre o Maranhão.”

Tu vieste para Portugal há dez anos, com intenções de estudar. Nestes dez anos cá, sentes que te transformaste num Wandson diferente?

Completamente. Não tenho dúvida nenhuma disso. Eu consigo mesmo separar o azeite da água. Consigo mesmo perceber que existem duas pessoas: uma, que estava nas asas dos pais; e outra, que teve o choque de realidade, que percebeu que a vida adulta tem os seus desafios. Crescer dói, crescer magoa. Mas acho que é isso que nos torna um bocadinho mais fortes.

Este percurso de adaptação a Portugal foi difícil para ti?

Eu estava muito perdido quando cheguei cá. A nível cultural, a nível linguístico… Por exemplo, os professores falavam comigo sobre o trabalho que eu fiz e eu não percebia o que eles queriam dizer. Eles estavam a elogiar ou a criticar o meu trabalho e eu não percebia (risos) Ficava paralisado porque é a mesma língua… mas é muito diferente! No primeiro dia de aulas conheci o meu grande amigo Miguel Carvalho, que com o Francisco Abrunhosa e o Pedro Paulos me apresentaram mais amigos. Tudo o que eu sei de Portugal aprendi com estas três enciclopédias ambulantes! (risos) As pessoas que eu admiro, as coisas que eu vejo, é muito baseado naquilo que eles me mostraram na altura. Até os brinquedos! O Francisco tem uma coleção incrível de Star Wars e eu só pensei “Meu Deus, era isto tudo que eu queria ser!” porque na escola, no Maranhão, eu sofria bullying porque levava os meus brinquedos. Ouvia sempre comentários como “Que criança!” e achava muito estranho dizerem-me aquilo. Quando cheguei a Portugal e conheci pessoas com coleções de brinquedos incríveis, eu senti-me completamente integrado… (suspiros) e foi tão bom! (algumas lágrimas).

Nós portugueses temos alguns defeitos. Dizem até que somos muito “tempestade em copo de água”. Sentiste isso quando cá chegaste?

(risos) O meu pai diz que eu me tornei numa espécie de português porque eu já falo com ele em português de Portugal e ele já não entende algumas coisas que eu digo. Mas eu acho que boa parte do stress que me caracteriza, eu aprendi aqui! Eu aprendi a stressar aqui!  (risos) No meu vocabulário não havia a palavra “panicar”. Não é uma palavra muito usada no Brasil. Quando ouvi a expressão “Estou a panicar” só pensei: “Que raio é isso, Meu Deus?”. Na faculdade, em altura de entrega de trabalhos, toda a gente dizia “estou a panicar”. Uns três meses depois, eu também estava a panicar! (risos) Ver os meus colegas, em frente à gráfica onde se imprimiam os trabalhos, com a mão na cabeça e a dizer “estou a panicar” foi um dos momentos mais engraçados que eu já vivi aqui.

Vamos focar-nos na parte profissional: sentes que és uma pessoa criativa por natureza ou esforças-te para isso?

Eu não sei sinceramente o que é a criatividade. Dizer que sou criativo é estranho para mim. Eu acho que a forma como nós nos comportamos e como criamos pode levar ao rótulo de “ser criativo”. No entanto, eu prefiro que me chamem criativo. Não gosto de influencer. No fundo, eu sou designer.

Mas como definirias a tua criatividade?

A criatividade é algo muito doido! (risos) Às vezes eu estou a andar na rua e lembro-me de qualquer coisa que vi na televisão nos anos 90, 2000. É um estalo! Eu sonho com coisas. Antigamente, esses estalos que me surgiam eu deixava passar, mas hoje eu aponto tudo no meu bloco de notas do telemóvel. Porquê? Porque estou atento àquilo que me chega. À perceção visual, ao olfato, à audição. Eu vou aproveitando esses estalos porque, realmente, não é todos os dias que eles surgem. A partir daí, eu começo a conceber como posso usar essa ideia que eu tive de uma forma visual.

Achas que é esse o teu super poder? Olhar o mundo de um jeito diferente?

Não sei, talvez seja (risos)

Dizes-nos que recebes inputs do mundo que te rodeia, da natureza, diariamente. Mas ao vermos o teu trabalho, principalmente no teu Instagram, percebemos que não deixas nada ao acaso. Certo?

Certo. Não posso. O meu Instagram é o meu portefólio. A minha audiência está ali. Eu não posso deixar perder a oportunidade de mostrar às pessoas aquilo que eu valho. É poder abraçar o mundo através do Instagram. É muito isso que eu tento fazer. Agora até já mostro as etapas das minhas ideias.

Fotografia ©Nuno Sampaio

No teu feed de Instagram podemos ver o teu génio criativo. Nos teus instastories, vemos a tua faceta mais divertida. Sentes que é esta junção que tem feito o teu percurso, que tem feito tanta gente (e tantas marcas) olharem para ti? Como tem sido a experiência?

Confuso, engraçado, divertido, trabalhoso, adulto. Eu tinha uma outra conta de Instagram, mais pessoal, onde colocava os meus instastories para os meus amigos verem. Eu tinha muita preocupação em fazer com que as pessoas percebessem que os meus posts no feed eram o meu trabalho. Quis que as pessoas percebessem que eu tinha uma conta pessoal e uma conta profissional. Mas os meus amigos começaram a dizer que seria interessante eu fazer tudo isso no mesmo perfil. Mostrar quem eu era. Eu queria ser muito sério no Instagram. De repente, comecei a fazer eventos e a mostrar como tudo acontecia e o feedback foi muito bom! Eu comecei a divertir-me a fazer aquilo, comecei a ser mais visto por pessoas e por marcas. O desafio no meio disto tudo? É saber dizer não. É saber a hora de parar. Perceber o que é importante para mim e para as pessoas que estão a assistir. Eu não posso usar as pessoas a meu belo prazer. Não é correto eu estar a inundar os vossos feeds com imensas marcas. Eu preciso de fazer escolhas e perceber o que é importante… os meus últimos meses foram passados a dizer “não” a muita coisa. Muita gente me aconselhou a dizer sim, mas o correto, a meu ver, é não ficar tão “vendido”. O mundo gira de uma forma muito estranha e nós não sabemos quando é que isto vai parar, quando é o dia em que olharão para mim a dizer “já está bom, já passou a tua fase”. Não quero criar ruído.

Consideras então que estás numa boa fase profissional?

O que me tem dado prazer agora é conseguir fazer coisas que não preciso de colocar no feed. Empresas que me chamam para fazer outras coisas. Isso dá-me liberdade para fazer outras coisas. E estou muito feliz com isso.

Fotografia ©Nuno Sampaio

“Crescer dói, crescer magoa. Mas acho que é isso que nos torna um bocadinho mais fortes.”

Tu então não te consideras influencer. És apenas um ídolo acessível?

(risos) Eu acho que no meio disto tudo nós temos de ser verdadeiros. Mas deixem-me contar a história do “ídolo acessível”, porque é maravilhoso! Eu estava numa festa onde estava uma pessoa que eu gosto muito. As pessoas no Instagram não são amigas, só se seguem, mas eu achei que essa pessoa ia ser minha amiga (risos) Fui super feliz falar com ela. No entanto, só recebi um “oi”. Eu só pensei: “porque é que ela foi assim comigo?”. Foi muito estranho! Mas, nessa mesma festa, estava também o Rodrigo Santoro que foi beber copos comigo! Eu aí pensei: “Nossa, esse é o ídolo acessível”. A primeira vez que eu disse “ídolo acessível” foi com ele. E ficou!

Mas tens um ídolo acessível em Portugal?

Eu acho que o meu ídolo acessível aqui em Portugal é, sem sombra de dúvida, o Nuno Markl. É uma das pessoas que eu mais respeito. Eu sinto-me como a Eleven, em Stranger Things, e ele é o Hopper. O Markl abriu mais portas para mim do que aquilo que possam imaginar. Convidou-me para fazer parte da cave e eu fiquei derretido. Tenho muito respeito por ele.

Já que falamos em ídolos acessíveis, gostaríamos de perceber de onde vem a inspiração para certas expressões que usas com regularidade: falamos do ídolo acessível, do paga finos, do tenso, da amizade. Estas expressões fazem parte do teu discurso diário?

(risos) Sim, eu falo mesmo assim. Eu digo mesmo: “tenso”, “morri”, “parei”. Quando vejo que estou ‘enchendo o saco’ das pessoas nos stories, digo “pronto, parei”. De repente, as pessoas abordavam-me na rua com essas expressões! É surreal, sabem? Quem concorda, respira! Pode ser esta a minha próxima expressão. Gostam? (risos)

O que sentes quando te chamam ídolo acessível?

O “ídolo acessível” é uma grande ‘tanga’, porque não existe ídolo nenhum, existe um amigo, alguém que procura criar raízes aqui em Portugal. Eu às vezes também me sinto sozinho e há pessoas que, com esta atividade de Instagram, se transformaram em mais do que um avatar. São pessoas que me fazem companhia quando me encontram na rua.

Fotografia ©Nuno Sampaio

“Eu acho que o meu ídolo acessível aqui em Portugal é, sem sombra de dúvida, o Nuno Markl. É uma das pessoas que eu mais respeito. Eu sinto-me como a Eleven, em Stranger Things, e ele é o Hopper.”

Mas como é que uma pessoa tão divertida por natureza lida com os dias menos bons?

Chorar em casa e sorrir na rua! (risos) Existem claramente momentos tristes e nós temos que os respeitar. Há dias em que estou mais focado na minha vida, nos meus dilemas. Sou humano, sinto muita coisa. Não uso o Instagram como terapia, mas é sempre um escape.

É impossível não falarmos dos teus filtros de Instagram! Sentes que, agora sim, estás a influenciar?

(risos) Meu Deus! A minha ideia surgiu porque eu estava com preguiça de escrever “tenso” e “parei”. Assim eu só toco no ecrã e já está. Em menos de 24h, os meus filtros viralizaram! Tinha mais pessoas a usarem os meus filtros do que seguidores do meu perfil! Como é possível?

Achas que já podes dizer ao pessoal do Maranhão que venceste na Europa?

Brilhando na Europa! (risos) Eu estou tentando. O meu sonho é conseguir brilhar, é conseguir mostrar mais o meu trabalho.

O ser humano é permanentemente insatisfeito e tem sempre sonhos por cumprir. Já idealizaste, nesses teus sonhos, voltar ao Brasil?

Sim. Uma semana! (risos)

Sentes que o Brasil que tu deixaste não merece que tu regresses?

Eu acho que o Brasil vive tempos muito confusos. A crise política, social e existencial brasileira é preocupante. É viver num hiato. Do nada. É uma roda repleta de coisas a acontecer, mas que não vai para lugar nenhum. Acho que é mentira atrás de mentira. Não tem verdade. Não tem sustentabilidade. Para mim, o mais importante é respeitar os direitos humanos, respeitar o próximo. E isso não está a acontecer agora. Isso expande da política para as pessoas e as pessoas começam a entrar num caos onde ninguém se respeita. Família não sei respeita, amigos não se respeitam. Tudo por causa de visões políticas divergentes. Eu não consigo perceber pessoas que apoiam a política atual brasileira e achar que aquilo está correto. Mas tenho de respeitar a opinião.

Apaixonaste-te por Portugal?

Encontrei aqui a A-MI-ZA-DE! (risos) Eu quando era pequeno e os meus pais me chateavam a pedir para arrumar o quarto, eu só respondia: “Eu vou para Portugal!” porque o meu apelido é Lisboa (e vim morar para o Porto). Era uma brincadeira, mas acabou por acontecer. Aqui é tudo meio mágico. Sinto que vim numa expedição, brincar e divertir-me com seriedade. Mas o meu chão vai ser sempre o Maranhão.

Começamos esta entrevista com uma viagem ao passado e agora queremos terminar com uma viagem para o futuro. Estamos em 2025. O que está o Wandson a fazer?

Estou na praia, deitado, com muitos finos perto, mas sem barriga! (risos) Eu queria ter uma empresa, onde eu seria um consultor, mas conseguia realizar o sonho de quem trabalhasse comigo. Que tudo fosse muito justo. Mas isso é uma utopia, não é? Na verdade, nunca parei para pensar no futuro, mas em 2025 eu vou estar com 38 anos (tenho 33) e, provavelmente, estarei já a pensar na minha festa dos 40 anos! (risos) Quero muito estar onde o meu pai esteve com essa idade, a nível de vida. As inspirações que eu tenho de vida são o meu pai e a minha mãe. O meu pai começou a trabalhar muito novo e teve as coisas que quis porque trabalhou – e não porque alguém lhe deu. Quando eu fiz 30 anos, o meu pai emancipou-me. Faz três anos que eu corro atrás dos meus objetivos, com responsabilidade, sozinho. Em 2025 quero estar com saúde, com amigos e a pagar finos aos amigos… casar, ter um filho, sei lá! Um dia, quem sabe… Ter um filho deve ser muito especial. Passar um legado emocional, as tuas experiências, dar um bom exemplo, é especial. Foi isso que os meus pais fizeram comigo. A idade está a bater e eu quero mostrar um mundo fixe para uma pessoa que eu amo, que é meu – se bem que também posso adotar. O amor vem de todas as formas!

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