Revista Rua

2019-04-11T12:34:59+00:00 Cultura, Música

We Find You, a música como uma procura constante

David Dias (à esquerda) e Miguel Faria (à direita). Fotografias ©Nuno Sampaio
Maria Inês Neto
Maria Inês Neto9 Abril, 2019
We Find You, a música como uma procura constante

We Find You é um projeto musical criado em 2015 por Miguel Faria e David Dias. Com Miguel na guitarra (e na voz) a acompanhar a arte vocal de David, os dois jovens viram o seu hobby a tornar-se num projeto à séria, num curto espaço de tempo. Começaram por produzir as suas próprias versões de vozes femininas, artistas que tinham como referência, em covers tão autênticos que despertaram uma vontade natural de produzir temas originais. Enquanto divulgavam o próximo concerto – dia 13 de abril, no Espaço Vita, em Braga – sentámo-nos à conversa para conhecer a história e o futuro desta banda minhota.

We Find You nasce em 2015. Como é que se conheceram e de onde surge a ideia de formarem este projeto musical, juntos?

David – O Miguel mandou-me uma mensagem através das redes sociais, em 2015, para falar sobre um projeto que tinha, que seria em inglês e numa linguagem comercial. Falamos sobre música, percebemos se tínhamos compatibilidade em termos de gostos musicais. A partir daí, começamos a fazer covers e depois temas originais.

De que forma o estilo musical de cada um se fundiu num só? Foi um processo fácil ou demorado?

Miguel – Os nossos gostos musicais até não eram assim muito diferentes. Eu gosto muito de folk e, se calhar um bocado pela minha parte de guitarrista, aprecio muito a sonoridade da guitarra folk. Também tínhamos alguns artistas em comum que gostávamos e não foi difícil. Quando começamos a construir inicialmente os covers, percebemos qual era a identidade de cada um, de cada gosto individual, e conseguimos chegar a um consenso.

David – Antes de conhecer o Miguel eu tocava sozinho. Tinha uma espécie de One Man Band, numa linguagem mais indie e alternativa, mas também dentro da linguagem pop. Tanto eu como o Miguel estávamos com a mesma mentalidade, de querermos formar uma banda e fazer temas mais acessíveis e de que gostássemos. Uma linha folk mais simples foi o nosso objetivo desde o início.

 

Miguel Faria

Em que vertente musical entra a vossa música? Associam-se a alguma influência musical?

David – Identificamo-nos como pop folk, se bem que acabamos por ter alguns temas que saem um pouco dessa linha. Não nos desviamos do folk, pop, country e, no máximo, vamos um bocado ao rock. Somos uma banda que está ainda a descobrir a sua identidade.

Miguel – O nosso objetivo sempre foi esse, de sermos dois e podermos levar um concerto a qualquer lado e que o nosso som suasse sempre como se fossemos os dois, de qualquer maneira, tanto em duo como com uma banda. Alguns artistas que tínhamos como referência já faziam isso, fomos seguindo a nossa viagem e acho que conseguimos fazê-la bem.

É, também, essa a história por detrás do nome da banda?

David – Exatamente. A questão de criar um nome para uma banda é sempre complicado, porque eu acho que no início todos os nomes parecem estranhos, por serem novos ou não serem sons sonantes. E muitas bandas acabam por ter nomes que não têm nada a ver, mas ficam. Tentamos arranjar um nome com base no nosso conceito, de sermos portáteis e levarmos música às pessoas. Já tivemos iniciativas, como as garden sessions, em que as pessoas se inscreviam e os concertos eram em sítios especiais, anunciados no próprio dia. Eram concertos mais intimistas e aconteciam em jardins de casas. É uma experiência que queremos repetir, porque acho que diz muito sobre a nossa identidade.

Começaram por criar versões de vários temas, curiosamente de vozes femininas, e aos poucos estrearam-se com originais. O que vos levou a dar este passo?

Miguel – Eu já fazia música para muita gente, e ainda faço, e essa parte mais criativa apoderou-se de forma a aproveitar a qualidade que já tínhamos nos covers. Comecei a pensar: porque não fazermos uma coisa mais nossa e vermos como corre? Começamos com um tema que fomos apresentando e o público ia gostando. Fizemos um segundo tema, que ainda gostamos mais do que o primeiro, e decidimos gravar os dois em vídeo. A reação das pessoas, e da comunidade musical, a esses vídeos foi muito positiva. No fundo já sabíamos que a parte criativa de cada um era mais forte e ia acabar por acontecer. Aliás, a nossa agência, a Primeira Linha, que agencia nomes como Miguel Araújo, The Black Mamba, Quatro e Meia e Os Azeitonas, pegou em nós quando tínhamos apenas dois temas no YouTube. Quanto às vozes femininas, achamos que havia um nicho de mulheres que gostávamos de ouvir, e que tínhamos como referência, como a Amy Winehouse, e começámos a criar as nossas versões, o que tem corrido muito bem.

No ano passado subiram ao palco do MEO Marés Vivas e integraram um cartaz repleto de artistas reconhecidos. Estavam à espera? Foi um momento importante para a vossa carreira?

David – Eu acho que foi daqueles momentos em que não “cai a ficha”. Estávamos muito focados no trabalho, em fazermos concertos. Até ao festival estávamos mais habituados a trabalhar em duo e foi uma forma de impulsionar esta necessidade de trabalharmos com banda – com um baterista e um baixista – e eu só pensava no trabalho. Pensei: é um festival de verão, vamos ter a oportunidade de tocar para um público de festival e nunca tínhamos atuado nessa escala. Comecei a perceber a grandiosidade do momento quando várias pessoas me vierem falar sobre isso. Não estava à espera que esse momento tivesse tanta importância como acabou por ter.

Miguel – Eu estava a dar aulas nessa altura e recebi uma chamada do nosso técnico a dizer: preciso de algumas referências para o vosso concerto no MEO Marés Vivas. Eu disse que sim e desliguei o telefone. Passado uns segundos voltei a contactar: desculpa, mas tu disseste mesmo MEO Marés Vivas? Para uma banda como nós, com tão pouco tempo de existência e com apenas dois temas criados, ter a oportunidade de trabalhar com uma agência fantástica e começar a fazer concertos como estes, é incrível. Quando nós pensávamos que íamos apenas tocar em bares locais, de repente atingiu uma escala muito maior e séria.

“Lembra” é um tema original e em português, com letra e música do Miguel. Depois de algumas versões em inglês, cantar em português era algo inevitável (no bom sentido da palavra)?

Miguel – Eu fiz vários projetos em português, nomeadamente músicas para novelas e que chegaram ao topo, e toda a gente me dizia: “Se isto fosse em inglês é que era!” Então resolvi criar um projeto em inglês, daí ter falado com o David, e começámos a fazer música em inglês. De repente começou-se a ouvir, outra vez, muita música portuguesa nas rádios e começaram a dizer-nos o contrário, de que deveríamos ter temas em português. Peguei na guitarra e comecei a construir o tema. O objetivo era criar algo em português, mas que não desvirtuasse aquilo que os We Find You são. Queríamos que a sonoridade fosse a mesma, que aquilo que nos demarca dos restantes projetos continuasse lá e acho que conseguimos com esse tema.

David Dias

E tencionam continuar a lançar mais temas em português?

David – Tem a ver com uma questão de identidade. Nós, We Find You, apresentamo-nos com um nome e temas em inglês. Tanto por uma questão de mercado, como por sermos portugueses, faz sentido termos um ou outro tema em português, até porque – felizmente – Portugal está a passar por uma fase em que se consome muito mais música portuguesa. O objetivo continua a ser criar temas em inglês, porque a nossa intenção não é apenas o mercado português, mas o mercado internacional.

Do que fala essencialmente as vossas letras? O que transmite a vossa música?

Miguel – temos letras com muita esperança, falam de coisas que acontecem às pessoas no dia a dia e que por muito más que sejam temos de ter sempre aquela força para continuar. Falámos de amor e daqueles temas que as pessoas sentem e nós sentimos também. Temos temas mais dramáticos, que também gostamos a nível pessoal, e curiosamente as pessoas gostam de contemplar um pouco essa vertente. Aliás, nos nossos concertos temos sempre feito uma parte mais acústica com temas mais down.

Os vossos concertos têm um carácter mais intimista, com um público que está próximo e que interage com a própria banda. É importante este conceito para o vosso projeto?

David – Era. O nosso objetivo sempre foi a interação com o público. Esta questão de partilhar a música e de ser acessível, sem a simplificar demasiado. Procuramos ter mensagens e conteúdos que sentimos que as pessoas percebem e para isso é fazê-las interagir.

Miguel – Costumamos chamar as pessoas ao palco para que toquem, dancem e cantem connosco, porque sentem-se parte do concerto.

O David já participou em programas televisivos como o Fator X (em 2013) e recentemente no The Voice, que teve um impacto considerável. O que é que essa experiência trouxe à sua vida a nível profissional (e também pessoal)?

David – A televisão é a televisão e continua a ser um dos meios de comunicação mais fortes. Pensei neste tipo de programa para mostrar aquilo que eu faço. Gosto de ser desafiado para “entrar” na vida das pessoas, para que me vejam, conheçam e, eventualmente, também chamar a atenção para os We Find You. Mas não é a televisão que me vai dar uma carreira, nem é um programa que vai fazer de mim um artista ou músico. A minha perspetiva de participar no The Voice foi de ganhar alguma publicidade, mas também de me fazer representar e desafiar, e nesse aspeto foi uma experiência muito positiva. Não vejo a minha identidade como artista limitada àquele momento (atuação no The Voice), mas continua a ser momento muito bonito, para o qual eu olho e revejo-me.

Tocaram recentemente no café concerto, na Casa da Música, e no próximo dia 13 deste mês ocupam o Espaço Vita, na vossa cidade. O que podemos esperar?

Miguel – Vai ser um concerto fantástico. Já atuamos algumas vezes na Casa da Música e resolvemos testar lá um pouco daquilo que vamos fazer no Espaço Vita. Será o primeiro concerto numa sala grande, só com We Find You. Vamos ter uma banda a tocar connosco, alguns artistas convidados, como o Daniel Pereira Cristo, o coro do Colégio João Paulo II e, ainda, a Bárbara Tinoco – uma amiga nossa que vai cantar connosco o nosso tema em português. Vai ser um concerto com muita energia, boa vibe e que está a ser muito bem preparado.

Depois de o vosso hobby se ter tornado num projeto sério, que expectativas reservam para este ano?

David – Este ano, o nosso objetivo é lançar um EP, já lançamos dois singles, e sentimos que já se começa a justificar termos algum trabalho discográfico. Estamos em estúdio a gravar e certamente que o nosso objetivo será gravar posteriormente um álbum. Temos também já trabalhado na ideia de fazermos uma pequena tour internacional. Queremos continuar a trabalhar e a batalhar no nosso projeto e veremos no que dá (risos).

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