Revista Rua

2019-03-21T15:34:20+00:00 Cultura, Música

Budda Power Blues – Venham mais 15 de uma assentada que eu pago já

©Nuno Sampaio
Nuno Sampaio
Nuno Sampaio1 Março, 2019
Budda Power Blues – Venham mais 15 de uma assentada que eu pago já

A banda bracarense prepara-se para lançar o oitavo álbum. Fifteen Long Years está reservado para a comemoração dos 15 anos da banda e joga em casa, dia 16 de março no Theatro Circo. O trio constituído pelos irmãos Budda (voz e guitarra) e Nico Guedes (bateria) e Carl Minnemann (baixo), prepara-se para um ano de concertos. Estivemos à conversa com a banda onde tudo teve origem, na sala de ensaios.

Fifteen Long Years é o oitavo trabalho da banda, que vai ser lançado a 16 de março, simultaneamente com o primeiro concerto da tour no Theatro Circo, em Braga. Conseguem resumir 15 anos de existência? O que mudou desde o primeiro disco?

Budda – A única coisa que mudou é que nos levamos um bocadinho mais a sério. E o baixista (risos). Nós começamos por uma razão quase de estudo, de melhoria de nós próprios como músicos. Nós tocávamos nos Big Fat Mama que era uma banda de oito, com arranjos muito rígidos e complexos. Era muita gente. A banda tinha que ter uma hierarquia. Por si só era uma banda mais definida e muito mais pensada. Por vontade de extravasar isso, de experimentar e de explorar novos mundos, sobretudo no Blues, criamos uma banda free, inspirada na vibe dos anos 60, finais de 60 início de 70. Uma banda com muitos improvisos. Sem pensar que temos que ter um single para a rádio e a música dois minutos e meio. Sem nenhuma regra. Era uma forma de termos uma banda que era um laboratório e um ponto de ensaio, nosso, e de cultivo da química dos três. A banda rapidamente começou a ficar uma pouco mais séria do que aquilo que nós alguma vez imaginaríamos. Não tínhamos nenhuma intenção disso. Em 15 anos, este é o grande shift – a partir do One In A Million. Então decidimos fazer um disco gravado aqui, nesta sala, só de originais.  A partir de aqui começamos a assumir-nos como uma banda. Neste momento acho que estamos na fase que me agrada mais em Budda Power Blues.

Qual a diferença no panorama musical em Portugal desde há 15 anos?

Budda – Não querendo ser bairrista, acho que o Norte do país sempre teve mais força criativa, – pelo menos nos últimos 30 anos, –  do que o sul. No Sul existem mais profissionais, mais gente a tocar muito bem, – o Jazz no Sul sempre esteve mais à frente que o Norte, apesar de agora existir um equilíbrio maior. Tirando isso, a maioria das bandas eram nortenhas, do Porto e Braga principalmente: Mão Morta, Rui Veloso, Sérgio Godinho, GNR, Clã os Ornatos Violeta. Sempre houve uma grande escola de artistas aqui no Norte, não sei porque razão. Curiosamente, no Sul acabam por ser mais famosos como os Delfins, Resistência, UHF…são bandas que tiveram mais visibilidade, talvez por estarem mais perto dos media.

Mas existe mais descentralização na música hoje?

Budda – Eu acho que tudo ainda está muito centralizado em Lisboa, a televisão e os media estão todos em Lisboa. Mas isso é um problema mundial, não é uma questão de Lisboa e Portugal.

Conseguem antever mudanças nos próximos tempos?

Budda – Sim. Acho que a música ao vivo está a ter um comeback que me agrada muito, porque gosto muito de tocar ao vivo e de ver concertos ao vivo. Sinto que as pessoas estão um bocado cansadas do Dj. Começam a aparecer bandas gigantes dentro de um nicho pequeno. Que eu me lembre a grande banda, de uma forma mais abrangente, foram os Coldplay. As pessoas começam a voltar a querer ver bons músicos. Que é uma cena incrível! Podemos ver bandas cubanas a tocar muito bem, ou bandas de Jazz com músicos incríveis. Mesmo o Kizomba que foi “violado” e ostracizado, destruído – Kizomba e Kuduru – se for uma banda genuína a tocar bem, é incrível! É algo que é tocado por bons músicos. Estive no gnration a ver Marc Ribot, num registo que eu desconhecia, e estava a sala cheia. Mesmo sendo música muito difícil, não é algo mainstream, e as pessoas estão mesmo a gostar daquilo, genuinamente. As pessoas estão sequiosas de ver algo interessante. Os Expensive Soul, HMB, Tatanka, Black Mamba, os Azeitunas, o Zambujo, Ana Moura, são um bom exemplo. Tudo com excelentes músicos e produção. As pessoas estão mais exigentes e já não aceitam ver qualquer coisa.

Tocar ao lado de Shirley King (filha de BB King) ou partilhar o palco com Robert Cray imagino que são experiências incríveis. Qual a sensação de tocar com nomes tão importantes do Blues? É diferente quando entram em palco sozinhos ou a responsabilidade está sempre num grau superior?

Budda – Ambos no festival do Luxemburgo. Para além de termos feito grandes amigos, é um festival com uma magia incrível! São 50 concertos num dia. Respondendo à pergunta, até tocar é diferente depois de tocar é igual (risos). Dever ser um bocado o que sente o miúdo futebolista de 18 anos que é selecionado pela primeira vez para jogar na seleção nacional e está muito entusiasmado porque vai jogar com aquelas estrelas todas, mas depois de jogar é normal, são colegas de equipa. Deixas de ser fã e passas a ser colega.

Falando em nomes importantes da música, em 2016 lançaram um álbum com a Maria João. Foi um passo importante para a internacionalização?

Budda – Curiosamente não. Pensamos que iria acontecer, porque a João tem um nome fortíssimo fora de Portugal. Aconteceu exatamente o inverso, ganhamos mais mercado nacional. Lá fora temos tocado mais em trio porque as pessoas estão mais interessadas em ver-nos nesse formato. O mercado de Blues ainda é um bocado purista. Nós somos os freaks dos Blues. Para quem não é do Blues nós somos 100% puros.

Nico – Para um organizador de um festival de Blues nós somos uns tipos do Rock que toca Blues. Com a Maria João nós ganhamos público dela e a Maria ganhou público nosso.

Budda – Por exemplo, em Espanha o mercado de Blues é altamente conservador, parou em 1950.

Neste disco há um tema que é This Is My Blues e que é um Funk (risos), uma provocação. Nós fazemos música no século XXI, não sou negro, não sou analfabeto, não passei fome, somos os três licenciados, viemos todos de famílias sem problemas financeiros. Não temos um passado sofrido e miserável, que é característico. Não tem nada a ver connosco e com Portugal. Eu não posso ter a pretensão de escrever letras e de cantar músicas sobre uma realidade que não é minha. Seria até de certa forma estranho. Nós fazemos Blues deste século. Blues é uma forma de comunicar, com algumas estruturas harmónicas e melódicas, tem um contexto, mas “se queres ser tradicional vens de burro para os concertos”. Se estás a usar um sistema de som para amplificar o som, já não és tradicional, já ninguém é! O tradicional é um feeling é uma forma de estar e uma estética que vias respeitando, mas também a vais adulterando. A música sempre foi assim.

Algum concerto que tivessem dado que vos tivesse ficado na memória?

Nico – O último concerto no Theatro Circo que lançou o disco da comemoração dos 10 anos. Esse foi um concerto espetacular! A sala estava cheia e com muito bom ambiente. O Budda estava inspirado e falou imenso com o público. Houve ali uma energia muito positiva. O concerto da Noite Branca, há três anos, em Braga, também foi muito bom!

Budda – Esse concerto foi antes de Deolinda. Foi bastante atípico. Estava uma noite muito fria. Era noite branca, mas estava toda a gente de preto porque estava a chover e muito frio. No início do concerto não estava quase ninguém a assistir. Ao fim de quatro compassos tinhas mais de 100 mil pessoas à frente. Os concertos em Braga, para mim, são sempre os mais difíceis. Estás a tocar em casa e as pessoas estão sempre meio desconfiadas, muita gente conhece-nos. Sinto que estou sempre a ser observado. Quem me conhece sabe se estou ou nervoso ou não. Quando vais tocar ao Luxemburgo ninguém te conhece. No Theatro Circo é dos pouquíssimos concertos que fico nervoso! Este ano vamos lançar o álbum dos 15 anos lá. Vamos gravar áudio e vídeo para depois laçarmos um disco ao vivo, que ainda não temos.

O Blues tem um lugar cá em Portugal?

Budda – Garantidamente. E está a crescer. Deve haver uns 20 festivais de Blues em Portugal neste momento. O Blues é um estilo muito português na foram de estar, ou seja, é feito para as pessoas, é feito para receber. Acho que isso nos caracteriza muito como povo. Recebes alguém na tua casa e dás o melhor que tens.

Há mais planos para a comemoração dos 15 anos da banda?

Budda – Há um aplano de 15 concertos especiais que vão ser gravados para extrair uma música de cada um dos concertos e fazer um disco ao vivo com 15 músicas. Provavelmente sairá em 2020. Depois haverá muitos mais concertos da tournée que não são gravados. Todo o ano de 2019 vamos estar a celebrar os 15 anos da banda. Temos em pré-venda o vinil deste álbum, Fifteen Long Years. São 300 unidades numeradas. Tem sido engraçado porque há gente a pedir números. É uma prenda para os fãs da banda, para quem nos segue há muito tempo. É uma forma de dar algo que não simplesmente um disco. É também algo único. É 1 de 300. Uma espécie de serigrafia.

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